pequeno poema de amor 39

 

ando a morrer de amores

pela rapariga a quem compro hortaliças

na feira  desta minha rua aos sábados

tenho medo que me perca o respeito

por tamanho desatino

 

 

elesbão ribeiro

26/03/17

 

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soneto mal-ajambrado para vampiros iguais

 

 

co’as naus fuliginosas ao velho mundo

ímpares figuras na galopa das ondas

em conciliábulos e mutretas se achavam

a jogar cartas marcadas iguais duendes

 

os orelhudos pares de si a si rapinavam

o sangue dos garçons, dos operários

e se riam safados sob a capa advogada

com as mãos no bolso de seus fatos

 

não fossem querer os outros as pratas

os ducados com a habilidade forense

dos arquivos gastos em sigilo de estado

 

ou mesmo guardarem-se os mesmos

para grudarem-se à sombra do erário

os lâmias tardos e mal encomendados

 

 

oswaldo martins

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versos roubados

arlete me convidou
ela mora
no brás

noutro dia encontrei arlete
nem pediu desculpas

arlete
isso não se faz

elesbão ribeiro
23/03/17

versos roubados

– você me vira a cabeça
me tira do sério
não me sai da cabeça
não larga de mim

–  tás fudido

elesbão ribeiro
22/03/17

 

provação

para martin scorcese
pelo filme silêncio

um homem há de ter os pés pousados no chão
os pés de um homem não podem estar fincados no chão
só um homem com pés pousados no chão pode recusar-se
[ a fugir

 

elesbão ribeiro
13/03/17

 

não digas nada
para mariana cruz e andré  capilé

foi com a minha mãe que aprendi a pisar nas flores
nas flores que lhe trazia o meu pai
foi com a minha mãe que aprendi a pisar nas flores
nas flores que me trazia o meu marido

não tragas flores neste dia
não tragas nada
se nada souberes dizer

não digas nada
se nada souberes de mim

elesbão ribeiro
08/03/17- no dia delas

 

 

 

 

 

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relatos mais pequenos sobre coisas miúdas 53 b

 

Também fora assim nas salas de cinema, antes das poltronas serem numeradas. As pessoas aglomeravam-se junto à porta da sala de projeção e, quando aberta, projetavam-se com desatino à procura do “melhor lugar”. Certa vez pisou o braço de uma senhora que tinha sido jogada ao chão por esse estouro. Sem saber o que lhe dizer, foi esconder-se no toalete. Quando as luzes se apagaram, foi pra rua. Não sabia o que dizer. Desculpe, eu fui empurrado.  Mas você também estava a correr, tinha medo que a mulher lhe dissesse isso.

Lá estavam projetados na tela, a matrona muito formosa a vender hortaliças, o aluno do colégio estadual que lhe cedera o lugar no trem da Central do Brasil e o amigo que fora para a escola do rapaz que lhe cedera o assento no dia anterior. Não se conheciam nem se pertenciam, não falavam entre si. Acenavam e diziam em línguas diferentes que o Antunes pode entender por serem legendadas: é só um protocolo, é só um protocolo.

Senhor Antunes, adiantou-se o aluno do colégio da rede pública estadual, vim a pedido do meu querido professor, seu amigo também. Não é meramente um protocolo o pedido de desculpas que as pessoas fazem. Pedem desculpas como a dizer que não têm nenhuma responsabilidade com o que possa acontecer. É um lavar de mãos, ao modo de Pilatos.

 

elesbão ribeiro

01/03/17

 

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relatos mais pequenos sobre coisas miúdas 53

Ia o Antunes a andar com duas sacas de compras pela metade, quando esbarrou num sujeito mais alto que ele. Desculpe, ouviu o homem a dizer. Fui eu que esbarrei e é ele quem me pede desculpas! Precisava comprar um carrinho, mas tinha medo de atrapalhar-se no meio de tanta gente – e, depois, morava na mesma rua, na rua da feira aos sábados. Tornou o Antunes a roçar o braço de um rapaz mais novo, desculpe senhor, ouviu-o dizer. Quem tem de pedir desculpas sou eu, fui eu que esbarrei em você.

Ainda ontem, quase foi jogado ao chão e não lhe pediram desculpas. Estava a esperar o trem na estação de metrô em Botafogo, e aquela gente apinhada à porta, entrou com tal fúria que quase o atiraram ao chão. Querem viajar sentados, estão cansados. Mais adiante até cedem o lugar a outros passageiros. Deveria desembarcar na estação Central, mas com medo da enxurrada de pessoas em trânsito, foi à estação seguinte e pegou outra composição no contra fluxo, era menos gente.

Na gare D. Pedro II, dava-se o mesmo que em Botafogo. O Antunes ficou distante, só entrou depois da batalha terminada. Cedeu-lhe o assento um estudante de um colégio estadual: Sousa Aguiar. Lembrou-se do amigo que pedira remoção para essa escola, já não estava mais lá, aposentara-se.

Agora, na feira, a beber uma água de coco e a reparar nos encantos da matrona da barraca das hortaliças, lembra-se com estranheza que lhe peçam desculpas. Por que lhe pedem desculpas, quando é ele que esbarra?

É só um protocolo, Antunes, não percebes? Diz-lhe o filho da mulher das hortaliças, que lhe cedera o lugar no assento do trem, no dia anterior. E lá está o antigo colega de escola a acenar-lhe, enquanto ajeita o dinheiro do troco para dar a um freguês, é só um protocolo, Antunes.  É só um protocolo, fica esperto.

 

elesbão ribeiro

01/03/17

 

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